quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

É Deus,parece que vai ser só nós dois.

“Você me pergunta “sairei do buraco?”. Sairá, sim. Sairá brilhantemente. As coisas agora vão começar a acontecer, é meio tipo ímã, uma coisinha vai magnetizando outra e outra e outra, você vai ver.”
[Caio Fernando Abreu]

O caminho foi longo, tortuoso e íngreme...
Teve lágrimas. Teve sorrisos. Teve ansiedade. Teve borboletas doidinhas. Teve céu de abril e teve chuva. Teve pedra. Teve flor. Mas, hoje posso dizer com os pulmões cheios de ar e um sorriso mordido:
Refiz a trajetória e desfiz o fio da meada...até o início de quem eu sou.
Agora, sou eu sozinha. E isso não me parece ruim. Cansei de esperar por alguém que só a ausência me faz companhia. Eu sei que amar não tem remédio. Mas, eu posso encontrar meios alternativos de tratamento. Pode parecer egoísmo. Não é. É só cansaço. E hoje eu sinto que o cansaço antecede o tédio. Eu sei que amor não é só bonito. É feio também. Sei que não existe amor sem história, sem coração pingando, sem olhos vermelhos, sem nariz entupido de tanto choro. Sei que amores desesperados são os mais difíceis de superação. Eu disse difícil. Não impossível. E como você já deve ter percebido eu sou persistente. Eu sou daquelas pessoas que pertencem a um lugar só. Mas, não me querem nele. Como os gregos tentando retornar a Ítaca. Sou ausente, mesmo presente. Sou este partir. Sou esse ficar. E o navio que me levou não voltará. E o porto não há mais. Sinto-me incompleta. Amputada de uma parte minha que não há mais e que me dói, tê-la perdida. Pode parecer amargo. Mas, não é. É necessário. Vou ter que reaprender a olhar sem você aqui por perto. Ver com mais maturidade. Receber com menos sofrimento. Acreditar com menos ilusões. Viver com mais tranqüilidade. E reaprender a sorrir com doçura e nenhum vestígio de dor. Vou ser livre para traçar meus próprios labirintos. Vou andar mais perdida, solitária e estranha na minha própria pátria. Aliás, vou sentir saudades de um país que não existe. Serei liberta. Estou me libertando dessa servidão voluntária. E para ser livre se tem que ter autonomia e segurança. Os meus problemas serão pequenos. Viver não doerá mais. Sua indiferença também não. Vou aceitar a verdade indubitável. Nossas vidas serão eternamente duas. Não teremos jardim para ilustrar uma casa que também nunca existirá. Cansei de insistir no impossível. Cansei de acreditar no improvável. Depois de repetidas vezes persistindo no mesmo erro... o melhor é desistir. Você pode até me chamar de covarde. Mas, meu maior dom foi ter a coragem de arriscar tudo, aceitar que a crueldade do amor me fez meio sozinha no mundo. Mas, estou com a consciência tranqüila. E em pouco tempo o coração também estará. Vou parar de esmurrar a ponta dessa faca enferrujada. Vou ali, lavar o sangue seco das minhas mãos. Vou aproveitar e espremer toda a água escura do meu coração e amanhã colocá-lo ao sol.
Boa noite. Fica com Deus. Au revoir!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

e ai já era.

Para pra pensar, porque eu já me toquei,eu te escolhi,você me escolheu eu sei.Tá escancarado, vai negar pro coração,que você "tá", com sintomas de paixão .
É quando os olhos se passam, em meio a multidão,quando a gente se esbarra, andando em qualquer direção,quando indiscretamente, a gente vai perdendo o chão,vai ficando bobo,vai ficando bobo.
E ai já era, é hora de se entregar.O amor não espera, só deixa o tempo passar.
E fica pro coração, a missão de avisar,o meu tá dando sinal, que tá querendo te amar.



jorge e mateus

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Os dois hóspedes.

Entre muitos hotéis da cidade,aquele era o mais aristocrático.Situado nun dos pontos mais altos,era ali que se hospedavam os viajantes mais ricos e respeitáveis,alguns dos quais acabavam fixando residências no edificio.A Bondade.a Ternura,o Ódio,a Saudade moravam nele.
Jovem e sadia,a Alegria ocupava uma torre esguia e clara,que o sol fazia faiscar,logo que amanhecia.A Tristeza,sempre vestida de negro,vivia nun quarto sem luz,que apenas os morcegos visitavam.A Hipocrisia habitava um subterrâneo e a Mentira um compartimento estreito,cercado de portas falsas,que lhe facilitavam a fuga à simples aproximação da Verdade.
Era nesse edificio que morava,chamando a atenção de todos,um cavalheiro moço,forte,musculoso,que às vezes se mostrava doce,polido,gentil,tolerante,e outras irritado,hostil,intransigente,e não raro,malcriado.Era vizinho do Ciúmes e ,sob o menor pretexto,altercava com ele,em geral,secundado pela Dúvida,cujos aposentos ficavam juntos,e tinha secreta comunicação interna.
Certo dia,esse cavalheiro,após uma discussão com os outros hóspedes,resolveu,abandonar o quartoque ocupava no hotel.Foi um escândalo.Gritos,súplicas,desmaios,bater de portas e tampas de mala.Tudo isso chegou lá fora,alarmando a vizinhança.
O cavalheiro,foi-se,pórem,embora,deixando vazio o quarto em que o iam visitar,alternadamente,a Ventura e o Tormento.
À tarde bateram à porta go hotel.Era um senhora timida,modesta,fisionomia bondosa,modos recatados,perguntando se havia aposento livre.
-Temos apenas um quarto,minha senhora.Foi desocupado hoje mesmo-explicou o dono da casa.E,indicando-lhe o compartimento:
-Entre.Aqui morava até ontem,o Amor.
-Quem?-estranhou a pretendente.
-O Amor.
-Ah!,não me serve!-tornou a candidata,retirando-se -Eu não posso residir onde esteve esse senhor.
-E a senhora quem é?
-Eu sou a Amizade! -explicou a recém-chegada
E desceu,um a um,os degraus do edificio,que tinha,não se sabe o motivo,a forma de um coração.


                               HUMBERTO DE CAMPOS